A primeira tentativa de transplante uterino foi realizada nos anos 2000, entretanto, 99 dias após a realização da cirurgia, o útero transplantado teve de ser removido por problemas de rejeição. O transplante de útero surgiu como uma excelente opção para a recuperação da fertilidade em mulheres com problemas uterinos, tais como: ausência congênita de útero (quando a mulher nasce sem útero), sinéquias uterinas ou Síndrome de Asherman (patologia caracterizada pela presença de aderências fibrosas adquiridas devido a lesões endometriais), miomatose uterina , adenomiose, a endometriose uterina (doença caracterizada pela invasão do endométrio na camada média do útero), câncer de endométrio e câncer do colo do útero, além de outras alterações que possam levar à perda cirúrgica uterina.
Poucos centros no mundo realizam a técnica. No brasil, o Hospital da Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) realizou o primeiro transplante de útero da America Latina no ano passado.
Caminhando a passos largos e acompanhando as novas demandas e mudanças da sociedade, os avanços da medicina reprodutiva já permitem, também, o transplante de útero para mulheres transgêneros. A novidade foi tema de debate no último Congresso Americano de Medicina Reprodutiva, que está sendo realizado desde o último dia 28 e se encerra amanhã, no Texas (EUA). A cirurgia permite que mulheres que nasceram em corpos masculinos possam não apenas transformar seu corpo por fora, mas também por dentro, a fim de poderem tornar-se mães e gerarem seus próprios filhos, se assim desejarem.
A regulamentação dos direitos dos transgêneros e a liberdade de acesso às cirurgias de mudança de sexo já faze parte da nossa realidade enquanto sociedade. As mudanças físicas e hormonais também já são uma realidade. Cirurgias de mudança de sexo e a reposição hormonal já são capazes de transformar um corpo masculino em feminino. A presença de útero e ovários seria o que faltaria para obter definitivamente a transformação completa. Para isso, no caso dos ovários, já existe a técnica de transplante de tecido ovariano, utilizado em pacientes com câncer, após tratamentos de quimioterapia. Congela-se o tecido ovariano antes da quimioterapia e, após o tratamento do câncer, se transplanta de volta o tecido com intuito de restabelecer as funções hormonais e reprodutivas da mulher. Nada, ainda, existe sobre o transplante de tecido ovariano entre pessoas diferentes, mas poderá ser uma possibilidade futura.
No caso do útero, já foram realizados, com sucesso, transplantes entre pessoas diferentes. Assim, o transplante uterino para uma mulher transgênera levanta a possibilidade real e futura de uma gravidez. Após toda a transformação do corpo, por cirurgias e uso de hormônios, o útero transplantado poderá ser capaz de gestar. A retirada dos testículos, com a finalização da produção da testosterona e o uso de estrógeno e progesterona (os hormônios femininos), transformam o corpo masculino em feminino. Com a implantação do útero, bastaria a realização de uma fertilização in vitro, com uso de óvulos e espermatozoides doados, para gerar embriões e, assim, buscar a gravidez. O detalhe é que os espermatozoides podem vir do parceiro e até da própria pessoa, caso ela tenha feito o congelamento de espermatozoides antes das intervenções cirúrgicas e hormonais usadas na transformação do corpo.
Linha do Tempo
A primeira gestação concebida por meio de útero transplantado é datada de 2013 e ocorreu na Turquia. A doadora do útero havia sido uma jovem de 22 anos que teve morte cerebral após um acidente automobilístico. A paciente transplantada havia esperado um ano para tentar a gravidez, pois a chance de rejeição após esse período seria menor e a necessidade de usar drogas imunossupressoras (medicações que interferem no sistema imunológico para diminuir o risco de rejeição) que poderiam ter efeitos negativos na gravidez e no feto também seria menor.
Ainda antes do transplante, a paciente havia sido submetida a duas fertilizações in vitro, em que foram congelados oito embriões para posterior transferência embrionária. Porém, com oito semanas de gravidez, a paciente, com 21 anos, antes diagnosticada com Síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser, ou ausência congênita de útero (nascimento sem útero), teve a gravidez interrompida por um abortamento.
Pouco mais de um ano após a primeira gravidez com útero transplantado, nasce, na Suécia, o primeiro bebê, fruto do mesmo procedimento. A mãe foi uma mulher de 36 anos, que recebeu o útero de outra de 61 anos, demonstrando que a idade parece não influenciar a qualidade uterina.
Antes do transplante, a paciente que tinha uma má-formação desde o nascimento, conhecida como Síndrome de Mayer-Rokitansky-Kuster-Hauser (ausência congênita do útero), foi submetida a uma fertilização in vitro, na qual obteve 11 embriões. Após o transplante foi realizada a transferência embrionária e atingida a gravidez.
Riscos
Sabe-se que a gravidez após transplante de útero tem mais riscos e mais chances de problemas do que uma gravidez comum, tais como abortamento, trabalho de parto prematuro, pré-eclâmpsia (pressão alta na gravidez), restrição de crescimento intrauterino e baixo peso ao nascer. Entretanto, apesar do uso das drogas imunossupressoras que precisam ser utilizadas, não parece haver maiores riscos de malformações. O risco de rejeição também existe, mesmo na gravidez.
De toda maneira, pode-se considerar que o transplante uterino é um grande marco alcançado e uma opção viável também para as mulheres que nasceram sob outro corpo. Estamos caminhando rumo a um novo divisor de águas, em que muito em breve deve ser noticiado a primeira criança gerada por uma mulher transgênero. Estamos possivelmente cada vez mais próximos da primeira gravidez em uma mulher transgênero, gerando um filho geneticamente seu, em seu próprio ventre. É direito de cada um definir seu sexo e sua forma de viver. Vivemos uma época de mudanças, avanços e de uma conscientização maior dos direitos de cada um na sociedade. A determinação do sexo e/ou da sexualidade é um direito individual e estamos avançando para que o direito de gestar e conceber filhos também seja um direito individual, não importando o sexo genético de cada um.
Fonte: Congresso Americano de Medicina Reprodutiva (ASRM), que está sendo realizado em San Antonio, no Texas, no período de 28 de outubro à 01 de novembro de 2017.
Texto escrito pelo Dr. Daniel Diógenes. Especialista em Medicina Reprodutiva. Diretor Técnico da Clínica Fertibaby Ceará, diretamente de San Antonio, no Texas, onde participa do Congresso Americano.